1. A EDUCAÇÃO TEOLÓGICA, UM ASPECTO DA MISSÃO DE DEUS
No presente capítulo se abordará a Educação Teológica como um aspecto da Missão de Deus na medida em que é desenvolvida como um ministério da Igreja. A Educação Teológica, na sua integralidade, desenvolve-se no marco maior, mais amplo, da Educação Cristã e guarda estreita relação com ela na função educativa da Igreja. O desenvolvimento da Educação Teológica deve ser de forma organizada, sistematizada e especializada, com o fim de dinamizar a teologia da Igreja e facilitar a sua missão. Portanto, a Educação Teológica se constitui um aspecto importante da Missão de Deus.
A Educação Teológica como disciplina especializada tem se desenvolvido para alcançar alvos definidos, como se pode observar na história da Igreja cristã. Em termos gerais, ela contribui na formação sólida de pessoas vinculadas aos ministérios da Igreja em missão. Esta disciplina tem progredido no decorrer do tempo, na historia da Igreja e no seu desenvolvimento.
Nesta mesma linha de pensamento, pode-se considerar como uma contribuição importante à opinião da Dra. Sherron Kay George. Ela disse: A Educação Cristã existe em função da missão da Igreja. A Educação teológica fica a serviço da maturidade da fé cristã de todos os membros da Igreja como um todo .
Assim mesmo, ela como educadora vincula a relação do Seminário com a Educação Teológica e destaca o papel que juntos cumprem na missão da Igreja. Ela disse: Educamos a fim de praticarmos os ministérios e vivermos a fé cristã. A finalidade última do seminário não se cumpre dentro de suas quatro paredes, mas dentro das igrejas locais com a edificação dos membros e do corpo e dentro da sociedade com a evangelização e a ação social.
A autora postula que a Educação Teológica contribui a formação integral da Igreja para uma missão Integral no mundo.
Para acrescentar um pouco ao assunto será importante também ver a contribuição de outro destacado teólogo latino-americano René Padilla, que compilou as palestras de um evento realizado pela Fraternidade Teológica Latino-americana, na década dos 80, e as publicou no livro chamado Nuevas Alternativas de Educación Teológica. Um de seus principais postulados foi:
Todos os membros da Igreja precisam de uma compreensão integral da missão, a fim de serem inseridos ativamente nela. Todos receberam dons e ministérios que precisam ser descobertos e desenvolvidos no serviço a Deus e o próximo. Portanto, todos precisam da Educação Teológica, para terem a possibilidade de serem integrados no fazer teológico.
O autor, recentemente, fez outra declaração à revista Kairós sobre este assunto. Nela pode-se evidenciar mudanças significativas no seu pensamento referente à Educação Teológica, pois introduz outros componentes em relação à primeira declaração. Como primeira questão ele afirma:
Que a função primeira e básica da Educação Teológica é a capacitação integral do povo de Deus, a fim de que este cumpra a vontade de Deus em todos os aspectos da vida. Esta disciplina não se ocupa somente de conteúdos, métodos ou técnicas, mas também de valores e atitudes típicas de discípulos de Jesus Cristo.
A definição anterior estava voltada e limitada mais ao sentido teológico e mais conceitual. Hoje sua compreensão sobre Educação Teológica está mais integrada. É evidente a relação entre a teologia e missiologia, entre a reflexão da Igreja e sua atuação integral no mundo. O autor deseja que a influência formativa da Educação Teológica passe além da mera religiosidade. O alvo é que os homens e mulheres em suas condutas evidenciem que são discípulos de Jesus Cristo, manifestando, assim, antes que uma conduta moralista, um estilo de vida baseado nos valores do Reino.
Outro aspecto importante abordado pelo mesmo autor é a relação da Educação Teológica com o sacerdócio de todos os crentes. A este respeito diz que:
A Educação Teológica deve formar pessoas que aceitam serem capacitadas para participarem na edificação do corpo de Cristo: aqueles homens e mulheres que estão com disposição de dispor seus dons ao serviço do bem comum e da extensão do Reino de Deus. Se a Educação Teológica não está ao serviço da vida e missão da Igreja, sua existência não tem sentido nenhum. Só pode ter sentido, quando capacita ao povo, para pensar sobre a sua fé, para servir no seu contexto tanto aos próprios crentes como a comunidade de fora.
Isto significa que a Educação Teológica de hoje tem como maior desafio ajudar aos discípulos contemporâneos no seu posicionamento contextual e na perspectiva de um futuro imediato, já que estão vivendo em um mundo de constantes mudanças. A Educação Teológica deve orientar e ajudar para que se relacionem com os outros saberes vigentes, não só no sentido racional, mas nas múltiplas dimensões da vida contemporânea: políticas, sociais, econômicas, culturais, religiosas, tecnológicas e científicas.
Mas em todos os casos, se faz necessário considerar as palavras de Sherron Kay George sobre o fundamento bíblico. Ela disse: Que tudo o que se faz na Igreja e na vida como cristãos deve ter seu fundamento bíblico. Ela tem razão. Isto orienta e obriga a Educação Teológica a ter suas raízes alicerçadas na Bíblia. E, continuando nesta metáfora da Educação Teológica como árvore, poderíamos dizer que ela também terá fortalecido os seus galhos na história vitoriosa da Igreja cristã; que não começou hoje, mas com Jesus Cristo e seus discípulos. Espera-se que, com sua influência, impulsione a Igreja a colher frutos abundantes. Talvez esses frutos não sejam colhidos hoje, porém amanhã. Serão como frutos de seu compromisso, do seu agir sadio, fiel e perseverante nos ensinos de Jesus Cristo, a Palavra encarnada.
Esta perspectiva precisa de continuidade que só pode ser garantida pela relação dinâmica de um discipulado permanente. Há exemplos bíblicos de discipulado que podem ser usados. Os modelos adequados poderiam ser o discipulado de Jesus ou de Paulo. Por exemplo, os discípulos de Jesus após seu preparo saíram a transformar o mundo .
No caso da relação de Paulo e Timóteo, pode-se ver uma relação de discipulador com discípulo, com uma perspectiva de continuidade para futuras gerações. Timóteo foi instruído por Paulo assim: Tu, pois, filho meu, fortifica-te na graça que está em Cristo Jesus. E o que de minha parte ouviste através de muitas testemunhas, isso mesmo transmite a homens fiéis e também idôneos para instruir a outros (2Tm 2:1,2).
Neste texto merece destaque o papel da educação que estabelece a relação de discipulador discípulo. A finalidade desta dinâmica é que o discípulo no futuro imediato alcance a maturidade e se torne discipulador. Neste sentido é que o papel da Educação Teológica visa formar permanentemente discípulos com maturidade e, uma vez capacitados, inseri-los na missão que a Igreja cumpre a favor da Missão de Deus.
De outro lado, será necessário também considerar a Missão de Deus como a soma de esforços concretos, graciosamente deliberados e procedentes dEle. Isto tem a finalidade de concretizar a restauração do ser humano e o universo à condição de Seus propósitos iniciais, como eram antes da queda. Deus como criador e redentor têm instaurado sua pedagogia, para possibilitar a reconstrução dos relacionamentos de toda sua criação com Ele. Este evangelho precisa ser ensinado a homens fiéis e idôneos a fim de que ensinem a outros.
Pelo dito, a Educação Teológica guarda intima relação com a Missão, e se constitui uma dimensão importante na Missão de Deus para o mundo.
1.1. A Educação, uma dimensão da Missão
Educação e Missão - estes dois conceitos serão eixos importantes no desenvolvimento desta pesquisa. Em primeiro lugar se estará abordando a relação da Educação na Missão de Deus, na criação, na queda e na restauração dos propósitos iniciais de Deus para com o ser humano e o universo. Em segundo lugar, se verá a Educação como missão humana e, finalmente, a Educação como missão da Igreja.
1.1.1. A Educação como Missão de Deus
A Educação como Missão de Deus, não é apenas uma definição conceitual. A Bíblia apresenta a Educação como princípio inerente à vida. Isto é, além da existência humana, pois inclui outros seres vivos. Todos foram dotados de qualidades que possibilitam a inter-relação e interação entre eles. Evidencia-se, assim, a pedagogia de Deus que está presente harmonizando a coexistência.
A Educação como missão de Deus está também presente no desenvolvimento da história humana, desde a criação até nossos dias. A pedagogia de Deus está direcionada para orientar o desenvolvimento e relacionamento do ser humano com ele mesmo, com o outro ser humano, com o mundo criado e do ser humano com o seu Criador. No caso do ser humano, a interação e a inter-relação são expressos por um conjunto de manifestações físicas, emocionais, intelectuais e, inclusive, religiosas. Daniel S. Schipani se refere a este conjunto como: esforços deliberados, sistematizados e reservados para trazer, como resultado, aprendizados que geram experiência e mais experiência, o que na linguagem mais especializada chamamos Educação .
Na história humana a presença da Educação está no contexto da missão redentora de Deus. A educação esteve presente na criação, na queda e também após ela com o surgimento do caos, do declínio e decadência humana. Paralelamente a esta situação surgiram os esforços deliberados de Deus visando a restauração dos propósitos eternos para com sua criação.
Estes propósitos vieram a se concretizar em Jesus Cristo, como uma missão vivificadora e restauradora de Deus. O conteúdo desta missão está expresso no Reino de Deus e sua justiça. Portanto este conteúdo deverá ser proclamado e ensinado pela Igreja. E esta para que a missão seja concretizada precisa estar aliada com o Espírito Santo de Deus.
O propósito último do Deus Trino é restaurar plenamente as primeiras coisas, uma nova ordem de vida, novo céu e nova terra. Nesta perspectiva de esperança, nesta utopia cristã, por assim dizer, o papel da Educação se torna vital, sendo uma dimensão da missão de Deus.
1.1.1.1.Presente na criação e na queda
Desde a perspectiva bíblica a educação começou em e com Deus, o criador da vida e de tudo quanto existe. A educação existe como parte inerente da vida, está e estará sempre presente nela. A vida não começa e acaba no homem, a vida precisa ser revista e revalorizada além dos seres humanos, pois na natureza existem outras formas de vida.
O Gênesis disse que Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom (Gn 1:31). Desta afirmação, pensando nos seres vivos, pode-se dizer que houve um formoso e perfeito equilíbrio ecológico. Significa que para cada espécie, segundo seu gênero e classificação biológica, foram estabelecidos princípios e formas de vida, de reprodução e de continuidade. Nesse sentido, a pedagogia de Deus estava presente desde o momento da criação.
Esta pedagogia de Deus é bem chamada por Pedro Arana como ordens da criação. As ordens da criação devem ser entendidas por: Características impressas por Deus, na sua criação para desenvolver relacionamentos os quais devem permanecer inalteráveis na sua essência, em toda a sua existência histórica, só podem variar, pela mudança do tempo e espaço; mas na sua estrutura essencial deve permanecer.
As mudanças a que se refere são de forma, mas não substanciais. Nas ordens da criação estabelecidas por Deus estão incluídas as leis naturais e os princípios de relacionamento que regulam a vida dos seres criados, mas também possibilitam a co-existência e continuidade da vida. E assim os relacionamentos do mundo criado por Deus estão orientados pela sua pedagogia.
De sua parte Carlos Rodriguez Brandão, alude a esta pedagogia, e explica que a educação não está limitada ao conceito escolarizado, está além disto. Ele tem sua visão do mundo e da vida. Assim percebe a presença pedagógica nos relacionamentos dos outros seres vivos e faz a seguinte afirmação:
A vida que transporta, de uma espécie para outra, dentro da história da natureza, e de uma geração a outra de viventes, dentro da espécie, os princípios através dos quais a própria vida apreende e ensina a sobreviver e a evoluir em cada tipo de ser. Os bichos do mundo apreendem, de dentro para fora, com as armas naturais do instinto. Mas a isto eles acrescentam, maneiras de aprender de fora para dentro, convivendo com a espécie, observando, a conduta de outros iguais de seu mundo e experimentando repetir muitas vezes essas condutas da espécie, por conta própria... Os bichos cujos pais da prole criam e recriam situações, para que o treino dos filhotes faça e repita os atos da aprendizagem que garante a vida, como mãe que um dia expulsa com amor o filho do ninho, para que ele aprenda a arte e a coragem do primeiro vôo.
Na convivência e na reprodução dos seres vivos a Educação está presente e é transmitida de geração a outra geração. Estes princípios e períodos de vida são processos continuados e transmitidos à descendência.
Então se pode reiterar que a Educação é parte inerente da vida, que está sempre presente na interação e na inter-relação especificamente em cada espécie viva. Também no desenvolvimento das relações que se dá no universo dos seres vivos, torna-se, assim, uma con-vivência entre os seres viventes.